Ecos dos 50 anos III

Oração de um velho que, em jovem, encontrou Cristo

 

Cristo, meu Senhor

Quero dar-Te graças

Porque, embora arrastando os pés,

Velho e cansado, até desiludido,

Cheguei hoje

Aos cinquenta anos

Do nosso Movimento.

 

Não me esqueço que prometi há muito tempo

Jogar a minha vida na Tua Palavra.

E retemperar a minha juventude na Tua graça

Que nunca envelhece.

Mas nem sempre fui fiel ao prometido

E talvez tenha acreditado

Que tínhamos feito um contrato

E que Tu não estavas a cumprir a

Tua parte: Na verdade, sinto-me a envelhecer.

 

Também Te prometi 

Que queria seguir-Te na aventura maravilhosa

E sempre inesperada de descobrir e em tudo realizar

O plano de Deus sobre o mundo e na minha vida.

Creio, porém, que ousei sobrepor os meus

Ao Teu plano, relegar-Te para segundo lugar,

E deixar que a minha vaidade tomasse conta

Do meu mundo e da minha vida,

Esquecendo a humildade do servo, 

E a disponibilidade para o serviço

 

Já Te não peço uma juventude, mas uma velhice

Ainda rebelde a todos os egoísmos,

Ainda rebelde aos instintos da violência, 

Ainda rebelde à instalação burguesa na vida,

Ainda rebelde à cobardia de dizer sim ao mal e não ao bem.

Mas já me conheces o suficiente Para saberes que vontade não me falta

Ao mesmo tempo que continua titânica

A luta contra a fraqueza da carne.

 

Quero, Cristo, meu irmão,

Contigo avançar rumo às estrelas,

À conquista dos mais formidáveis espaços

Que são os espaços do Amor.

Não Te zangues, porém, se, no caminho, 

Me perder nalgum atalho.

 

Queria contigo construir no entusiasmo

Um mundo melhor Que o dos nossos antepassados.

E como farei isso agora,

Se até aqui me não empenhei como era meu dever

Nas estruturas políticas e sociais,

Não lutei, não combati o bom combate,

Não fui audaz no anúncio da Boa Nova,

Me perdi nas circulares externas

E não entrei na cidade dos Homens

Para ser solidário com eles e com as suas lutas,

Me perdi no acessório, perdendo o norte do essencial,

E antes me remeti ao meu canto de conforto

Satisfeito com os que já pertencem à minha igreja,

Ao meu círculo, à minha trupe?

 

Desejaria ter amado sempre o imenso ar livre

Da liberdade autêntica,

Onde o Teu Espírito sopra em tempestade.

Todavia, na minha autossuficiência,

Faltou-me tempo para contemplar a planície

E perscrutar no horizonte

Essa Voz que talvez me trouxesse o sinal

Da Tua presença. 

 

Supliquei que o Teu Espírito 

Escolhesse o meu corpo para sua morada

E o libertasse da autoidolatria.

Esqueci-me, porém, de lhe abrir as portas,

Escancarar as janelas,

E destelhar as águas-furtadas:  Vivi vazio.

 

 

Secou-me nas veias o sangue moço 

E a chama da minha vida é somente 

Luz mortiça.  Como poderá com ela, 

O Teu Espírito, atear à minha volta

Um incêndio de Amor

Que faça de todos irmãos?

  

Cristo, meu amigo,

Perdoa o meu pecado

E, não obstante a minha pequenez, 

Continua a ensinar-me a conjugar o verbo amar

Em todos os tempos e modos,

No singular e sobretudo no plural,

A livrar-me dos negociantes do amor,

Dos mentirosos e dos impostores.

Mantém-me o discernimento,

Que saiba ver na diferença dos sexos

O sentido de uma aventura de fé e de amor,

A que continuas a chamar o homem e a mulher,

Para serem na Terra Imagem do Teu amor.

Cristo, meu Senhor,

Eu quero continuar 

A amar a Mãe Terra e a Vida,

A minha velhice e os tempos novos,

As espantosas conquistas técnicas do nosso tempo,

Os computadores, os tablets e os telemóveis,

E tudo o mais que a ciência descobrir

E nos não torne dependentes.

 

Ensina-me a compor

Com todos estes meus amores

Um novo cântico das criaturas,

Para com ele Te louvar

Até ao fim dos meus dias.

 

Manuel Faustino


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